Os Discursos Produzidos nos Fóruns Virtuais dos Psicotrópicos Anorexígenos
Geórgia Nepomuceno
RESUMO:
Este trabalho aborda a produção dos discursos nos fóruns virtuais dos psicotrópicos anorexígenos. Busca-se entender como a narrativa acontece tendo como objetivo a procura por informações a respeito de medicamentos para emagrecer. Sendo que em alguns casos, o desejo reside no próprio objeto. Ou seja, além do conteúdo informativo que versa sobre seu mecanismo de ação, existe o interesse por descobrir como adquiri-los.
Para uma melhor compreensão, cabe analisar outros aspectos das vidas dos participantes destes grupos e atentar para o modo que os indivíduos da era virtual interpretam seus próprios corpos. A partir das observações realizadas, nota-se a Internet como sendo uma ferramenta comunicacional de considerável importância, que tem por finalidade possibilitar um extenso canal de interação entre as pessoas.
PALAVRAS-CHAVES: Análise do Discurso, Internet, Psicotrópicos, Anorexígenos
ABSTRACT:
This work analyzes the production of the discourses in virtual forums of anorectic psychotropic. Its purpose is to understand how the narrative happens with objective on searching information about drugs in order to lose weight. But in some cases the desire is the object. So, beyond the information about its mechanism of action, there is an interest to discover how to acquire them.
To a better comprehension about the subject, it is necessary to analyze other aspects of the participants’ lives and to pay special attention to how people see their own bodies in the virtual era. With this research, we can observe that the Internet is a very important machine of the communication. It has as purpose to make possible an extensive channel of the interaction between people.
KEY-WORDS: Analysis of the discourse, Internet, psychotropic, anorectic.
INTRODUÇÃO
Os fóruns de discussão encontrados na Internet versam sobre uma infinidade de assuntos. Todavia, esta pesquisa tem a intenção de analisar aqueles que possuem como tema os psicotrópicos anorexígenos. Os mesmos são popularmente conhecidos como medicamentos e/ou remédios para emagrecer. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)[1], estas substâncias estão sujeitas a um controle especial. Estas são drogas que causam dependência física e psíquica, sendo que somente podem ser vendidas mediante a apresentação de um tipo de nota médica específica. Ainda de acordo com a Anvisa, a Notificação de Receita deve ser intransferível e personalizada.
Para se ter uma idéia mais ampla do que tratam estes chamados psicotrópicos anorexígenos, basta saber que eles estão no mesmo grupo de outros psicotrópicos, como por exemplo, os ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos, psicoestimulantes, tranquilizantes, sedativos e hipnóticos. Porém, seu mecanismo de ação está baseado na perda de peso.
Nos dias atuais, percebe-se que as pessoas possuem uma considerável preocupação com seus corpos. Existe um grupo delas que se preocupa com a manutenção de um organismo saudável, protegido de doenças e outros males. No entanto, existe um outro grupo em que a aparência (o que é visível aos olhos) é o principal ponto a ser trabalhado.
Busca-se, aqui, compreender o segundo conjunto citado acima, por meio das mudanças ocorridas ao longo do tempo, nas quais se verifica a transformação das sociedades e o surgimento das novas tecnologias da comunicação.
O levantamento dos endereços virtuais dos fóruns aqui utilizados foi realizado em junho de 2007. Existe a probabilidade dos mesmos já não serem mais encontrados on line. No entanto, cogitar a existência de muitos semelhantes a estes no ciberespaço é algo possível.
Para a análise dos discursos produzidos foram escolhidos dois fóruns de discussão hospedados no site de relacionamentos denominado Orkut e um no Inforum. Cada qual, durante o processo de análise, com suas características singulares preservadas e, dentro das possibilidades, devidamente pontuadas.
Portanto, pretende-se alcançar os motivos que levam os freqüentadores destes fóruns a estabelecer, manter e findar as conversas encontradas neste espaço da virtualidade.
O MODELO DE CORPO DESEJADO PELA SOCIEDADE
Este artigo será norteado pelas análises realizadas por Michel Foucault em relação às mudanças ocorridas no cotidiano das pessoas ao decorrer dos séculos e as diferentes formas de atuação do poder sobre o corpo. Para o teórico as sociedades do século XVII até àquelas que compreendem o início do século XX lidavam de maneira consideravelmente rígida com as questões relacionadas ao corpo[2]. Um dos locais onde esta observação pode ser encontrada trata-se de uma entrevista, datada de 1975, na qual Foucault é questionado a respeito da ligação entre o corpo e a pornografia.
Apesar do foco deste trabalho estar voltado para outro ponto, no qual cabe frisar que, neste momento, não se pretende remeter- se à sexualidade, se consegue alcançar um artifício, que logo será explicitado, permitindo dar continuidade ao raciocínio proposto.
As mudanças começam a acontecer no dia-a-dia de cada pessoa, mais nitidamente, a partir dos anos de 1960. Como citou Roberto Machado[3], para Foucault “não existe algo unitário e global chamado poder, mas unicamente formas díspares, heterogêneas, em constante transformação”. Logo, a maneira de aplicação do poder sobre os corpos também não é algo definido e perpétuo.
Dentro desta cronologia (séc. XVII até séc. XX), parte-se de uma sociedade regida pela disciplina para outra em que uma nova série de medidas é quem controla as ações dos indivíduos. Estas ações são guiadas de forma discreta, ainda por meio do capitalismo, porém sob o vetor da publicidade. O resultado é uma espécie de consumo de ritmo acelerado, no qual as subjetividades fazem parte do contexto.
Ainda para Foucault, “é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado.”[4] Anteriormente (na disciplina), o ser humano nada mais tinha que fazer do que seguir um conjunto de normas, num itinerário de operações mecânicas, na qual a satisfação residia no cumprimento das tarefas. A ferramenta que as executava era o próprio corpo, ensinado constantemente a ser manso e produtivo. Este, por sua vez, servia ao sistema social no qual estava inserido.
Com isso, observa-se a existência de instituições que se dedicavam a ensinar o comportamento descrito e, claro, havia interesses outros por de trás disso. Por exemplo, interesses de ordem monetária. Portanto, “muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também.”[5]
Foucault traça uma trajetória na qual o corpo nasce e morre. Primeiramente, o corpo aprende a obedecer nos colégios, depois é a vez das outras instituições de ensino, dos hospitais e, por fim, chega-se às organizações militares. Percebe-se que desde a infância, o sujeito (o não-indivíduo) é ensinado a proporcionar por meio de sua estrutura corporal algum resultado positivo. Esta passa a ser uma das principais características da sociedade das disciplinas, cujo corpo ideal era aquele que produzia por meio da força física resultados satisfatórios para o meio ao qual pertencia.
Verifica-se a confecção de seres humanos dotados de uma estrutura corporal resistente, forte na aparência e na execução das tarefas. Numa análise mais resumida, percebe-se a existência de um corpo dotado de força para executar trabalhos pesados nas fábricas, por exemplo, e fraco para opinar intelectualmente sobre qualquer assunto mais politizado (existe a ausência de consciência dos deveres e direitos políticos). Este último fica a cargo dos disciplinadores e, que assim seja, pois se atinge a meta proposta. Os objetivos variam desde boas notas e boa conduta nos colégios até os records de produção nas fábricas.
Observa-se que os chamados “corpos dóceis”[6], anteriores à metade do século XX, pouco têm a intenção de se rebelar contra àqueles que o dominam. Haja vista que, a primeira instituição na qual estão inseridos é o colégio e, este por sua vez, dispõe de um ensinamento religioso que prega o catolicismo. Nota-se que o sentimento de culpa basta para que o domínio impere e tenha continuidade.
Ensinado desde a infância sobre qual a importância de se cumprir as regras sem questioná-las, torna-se difícil não levar tal comportamento às demais instituições pelas quais o sujeito passará, após o término de cada etapa. O confinamento também fazia parte do esquema montado pelos disciplinadores e proporcionava ao homem, dono do corpo, uma considerável solidão. Na solidão, sem o contato com os demais sujeitos, não se trocava saberes. Logo, a parte intelectual não era estimulada e, quanto mais isso acontecia, melhor para se dominar essa “força produtiva”.[7]
Todavia, em meados de uma época (década de 1960) o poder que segundo Foucault “pode recuar, se deslocar, investir em outros lugares...”[8] mudou sua forma de atuação. Para se ter uma maior compreensão desta transição, basta remeter-se aos acontecimentos históricos dos últimos tempos. A Guerra Fria (1945-1989) necessitava não de homens fortes para lutar em campos de batalha, mas sim de indivíduos bem dotados intelectualmente, capazes de enviar astronautas à lua, desenvolver programas de computadores e um grandioso potencial bélico.
Com tudo isso, as sociedades controladas pelo novo capital emergiam sob versos prazerosos. Afinal, os corpos finalmente haviam se revoltado. O panorama oferecia oportunidades de trabalho no qual se valorizava muito mais um indivíduo pensante do que um sujeito da fábrica. Portanto, o poder tinha que ser operado de outra maneira. Acontecia, então, a passagem do “controle-repressão” para o “controle-estimulação”.[9] Este último alimenta subjetividades, oferece certa sensação de bem-estar, tenta fazer com que o homem acredite cada vez mais na sua individualidade e em sua importância social.
Neste momento da pesquisa, o artifício alcançado mencionado anteriormente passa a caber para que o raciocínio prossiga. Na mesma resposta, que versa sobre a pornografia na Europa, o teórico oferece como exemplo ao “controle-estimulação” a seguinte frase: ‘Fique nu... mas seja magro, bonito e bronzeado’. Como também já ressaltado, este diálogo aconteceu na década de 1970 e, alguns segmentos como o marketing das empresas da beleza já operavam, distribuindo ao mundo os valores que estariam sendo colocados em prática por muitos.
Os discursos dos fóruns virtuais dos psicotrópicos anorexígenos ainda não estavam em processo de gestação, haja vista que o primeiro grande passo para seu surgimento somente viria com a criação do Usenet (1979), “que logo se tornou um dos primeiros sistemas de conversa eletrônica em larga escala”.[10] Porém, os indivíduos já eram, sorrateiramente, ensinados a interpretar seus corpos da forma descrita acima. A beleza exterior passava a ter o mesmo valor da força física de outrora.
Para Foucault “resta estudar de que corpo necessita a sociedade atual”.[11] A sociedade dos fóruns dos psicotrópicos anorexígenos do século XXI possui grupos de pessoas que se encontram no chamado universo virtual e que desejam o mesmo que foi sugerido pelo teórico faz mais de 30 anos.
Questionado também sobre o papel do intelectual, Foucault é categórico em sua resposta, pois afirma que o mesmo “não tem que desempenhar o papel daquele que dá conselhos”, pois para ele “cabe àqueles que batem e se debatem encontrar, eles mesmos, os projetos, as táticas, os alvos de que necessitam”.[12]
Os usuários da rede que são as figuras participantes dos fóruns de discussão e que produzem discursos buscam descobrir aquilo que ignoram a respeito do assunto em questão. São estes os personagens que estão se debatendo. Como será observado, os fóruns servem como uma espécie de tatame, no qual os lutadores utilizam artifícios próprios para conseguir o que desejam. Apesar das metáforas utilizadas, os discursos são construídos isentos de agressividade.
OS FÓRUNS, OS DISCURSOS E SEUS PERSONAGENS
Foram selecionados três fóruns virtuais que têm como tema os psicotrópicos anorexígenos. Os dois primeiros foram retirados do Orkut, que é um site de relacionamentos bastante utilizado no Brasil e o terceiro foi retirado do domínio Inforum. Além disso, abre-se uma brecha para analisar a Internet enquanto ferramenta de considerável potencial comunicacional até ao ponto em que esta opera comercialmente, servindo de canal para a distribuição de riscos.
Orkut I – Fórum “Emagrecedor/Desobesin/Dualid”
A produção de discursos no Orkut, em se tratando dos fóruns, se dá por meio de um mediador (nome que explícita a função deste personagem) e por diversos emissores e receptores. Sendo estes os personagens que sempre são encontrados nos diferentes modelos de fóruns de discussão.
Neste site de relacionamentos, os fóruns se encontram dentro de grupos chamados comunidades, que além de funcionarem como fóruns principais, abrigam outros fóruns em condição secundária. A página da comunidade virtual intitulada Emagrecedor/Desobesi/Dualid[13] foi criada por uma mediadora, que na mesma se encontra identificada como Francine Thomaz Corrêa. Porém, esta possui status anônimo. Ou seja, não existe a necessidade dos emissores e receptores registrarem seus nomes ou apelidos para começarem a interagir.
A mediadora também não precisava se identificar, mas verifica-se que o fez. Todavia, nota-se que todos têm o direito de agir como desejam. Mas, cabe frisar que, este desejo não pode ser prejudicial ou causar aborrecimentos a nenhum participante dos fóruns. Agindo de maneira contrária, estes produtores de discursos não conseguirão atingir sua meta. Neste caso, pretende-se saber informações diversas a respeito de determinados medicamentos.
Recorda-se, neste ponto, que os artifícios utilizados partem dos próprios indivíduos e, um desses, é a boa conduta. Como nos colégios, um bom comportamento continua sendo preciso e valorizado. Os discursos têm começo e se mantêm graças à boa conduta de todos os produtores. A narrativa é polida (porém a linguagem em si não é rebuscada), sem agressões verbais (escritas) e isenta de arrogância.
De acordo com Pierre Lévy[14], a relação estabelecida entre os ocupantes dos dois pólos (emissão/recepção) é atribuída a uma “inteligência coletiva”. Para o autor, todos os integrantes do ciberespaço estabelecem uma relação, porque “o outro é alguém que sabe”. Logo, todos os envolvidos possuem algo a oferecer. Nos fóruns de discussão onde os psicotrópicos anorexígenos aparecem, encontra-se sempre alguém disposto a querer consumi-los e outro alguém disposto a fornecê-los, lembrando que ora um executa o papel do emissor, ora de receptor e vice-versa.
No Orkut as comunidades aparecem com uma lista já pré-determinada de perguntas respondidas pelo mediador.
Em seu discurso, o mediador propõe:
Vamos tirar dúvidas sobre a ação, tratamento, efeitos colaterais e por que alguns medicamentos não funcionam (tão bem) como deveriam... Mande suas dúvidas, seus resultados... Vamos trocar idéias sobre como podemos eliminar peso! Abraços e sejam bem vindos![15]
Aqui, o mediador por meio do discurso tenta atrair receptores e emissores interessados em emagrecer. Fica claro o objetivo da troca de experiências (conhecimentos) e observa-se que a atratividade na fala irá resultar numa espécie de satisfação para as pessoas que passarão a compor os fóruns. Os discursos despertam motivações, logo, faz com que os indivíduos participem.
Orkut II – Fórum “IMC?”
Índice de Massa Corporal (IMC)
Um dos fóruns da comunidade intitulada Quero ter IMC 16[16] (fórum principal), por sua vez, responde pelo nome de IMC?[17] (fórum secundário). Nele os emissores e receptores trocam informações sobre seus respectivos índices de massa corporal e a respeito de quem está na iminência de atingir a meta proposta pelo mediador: ter um IMC 16.
Vamos tirar dúvidas sobre a ação, tratamento, efeitos colaterais e por que alguns medicamentos não funcionam (tão bem) como deveriam... Mande suas dúvidas, seus resultados... Vamos trocar idéias sobre como podemos eliminar peso! Abraços e sejam bem vindos![15]
Aqui, o mediador por meio do discurso tenta atrair receptores e emissores interessados em emagrecer. Fica claro o objetivo da troca de experiências (conhecimentos) e observa-se que a atratividade na fala irá resultar numa espécie de satisfação para as pessoas que passarão a compor os fóruns. Os discursos despertam motivações, logo, faz com que os indivíduos participem.
Orkut II – Fórum “IMC?”
Índice de Massa Corporal (IMC)
Um dos fóruns da comunidade intitulada Quero ter IMC 16[16] (fórum principal), por sua vez, responde pelo nome de IMC?[17] (fórum secundário). Nele os emissores e receptores trocam informações sobre seus respectivos índices de massa corporal e a respeito de quem está na iminência de atingir a meta proposta pelo mediador: ter um IMC 16.
Nota-se também, novamente, que o conteúdo das informações está baseado no cotidiano de cada emissor e receptor. De maneira discreta, os personagens deste fórum exercitam uma espécie de solidariedade grupal. Eles esclarecem suas dúvidas e demonstram suas insatisfações. Uma das emissoras, de nome Aninha, diz ser a “única baleia” do grupo. O que não é bom para ela e gera descontentamento, pois além de se considerar do tamanho de um animal que tem muito mais massa corporal que qualquer homem pode atingir, ela está distante da meta, afinal, seu IMC é diferente de 16. Para piorar a situação, além de ser diferente do índice proposto, o IMC de Aninha é superior a ele. Seu IMC é 21.
A emissora chamada Sweet Tatynha, responsável pela última postagem verificada, possui IMC igual a 17. Portanto, o resultado é negativo ao que a Organização Mundial de Saúde (OMS)[18] estipula como sendo um Índice de Massa Corporal aceitável. Afinal, o valor é inferior ao ideal, cujo resultado do cálculo (peso em kg dividido pelo quadrado da altura em metro) está entre 20 e 25.
Percebe-se que não existe uma retórica gritante e muito menos se precisa dela, pois estes usuários fazem parte de uma juventude que não admite determinadas diferenças. Finalmente, em Cenas da Vida Pós-Moderna, a autora Beatriz Sarlo aponta para a necessidade de inclusão que as pessoas das sociedades de controle possuem. Pode parecer estranho, afinal o indivíduo ora deseja ser cada vez mais singular.
Ao discorrer sobre o desejo de uma menina de 14 anos em fazer uma cirurgia plástica, fica evidente a influência dos acontecimentos do dia-a-dia sobre o corpo e verifica-se a semelhança com as palavras de Michel Foucault.
Quero a operação, insistiu a menina. (...) Você é muito nova para tomar uma decisão, afirmou o pai. Todas as minhas amigas já mexeram em alguma coisa ou vão mexer para as suas festas de 15 anos! Eu é que não quero ser a única idiota! Idiotice é fazer a operação, redargüiu o irmão, porque deve doer à beca. Ninguém me entende, lamentou a menina.[19]
Percebe-se que no cotidiano desta futura debutante, a busca pelo corpo perfeito é algo bastante presente e que, inclusive, faz parte da vida de “todas” as suas amigas. Ao mesmo tempo em que, como mencionado anteriormente, o ser humano se debate pela individualidade, ele também trava uma batalha a favor de determinadas semelhanças. Para Sarlo, esse é um desdobramento da sociedade atual e não pára por aqui.
Somos livres. Cada vez seremos mais livres para projetar nossos corpos. Hoje a cirurgia plástica, amanhã a genética, tornam ou tornarão reais todos os sonhos. E quem sonha esses sonhos? A cultura sonha, somos sonhados por ícones da cultura. Somos livremente sonhados pelas capas de revistas, pelos cartazes, pela publicidade, pela moda: cada um de nós encontra um fio que promete conduzir a algo profundamente pessoal, nessa trama tecida com desejos absolutamente comuns. A instabilidade da sociedade moderna se compensa no lar dos sonhos, onde com retalhos de todos os lados conseguimos operar a ‘linguagem da nossa identidade social’.[20]
Portanto, sejam as cirurgias ou os medicamentos os meios utilizados, ambos possuem a mesma finalidade: dar ao indivíduo o corpo milimetricamente imaginado. Volta-se a questão de qual tipo de corpo a sociedade vigente deseja. A atual anseia por corpos belos, cuja magreza está intrínseca.
Os sonhos aos quais Sarlo faz menção parecem nunca terem fim. Esta é apenas uma aparência. Como já foi analisado, as produções dos discursos e suas manutenções acontecem devido à necessidade de uma troca de saberes, num ritual onde as normas não pesam com rigidez alguma, mas estão presentes permitindo a narrativa de cada participante. No entanto, os discursos podem se findar quando o corpo morre, ou quando o indivíduo (dono do corpo) não tem mais recursos financeiros para se manter conectado à rede virtual. No exemplo a seguir, do grupo do Inforum, verificar-se-á estes exemplos de finalização da produção dos discursos.
Inforum – “Miss Anna”
A emissora chamada Isabel produziu um discurso aflito sob o título (no campo assunto) “Urgente Mensagem para Miss Anna”.
Tenho 34 anos um filho de 8 anos, antigamente antes de ter o meu filho pesava 46 kilos para 1.54m Quero imagrecere no dia de hoje eu peso 61kilos e como muito menos que antigamente e nao como doces.... à 5 anos para ca ingordei de 15 kg e tenho feito muito atenção. Miss ana eu queria que voce me informase onde voce compra o frenpoporex e o que se deve fazer para ter o romedio. Ja nao posso com esta minha vida o meu homen ja nao gosta de min assim e nao quere continuar assim e eu estou desesperada, nado vou correr um pouco e nada a fazer ajuda me por favor porque a minha vida de familia vai muito mal e portanto fasso muito atençao à minha alimentação. [21]
Percebe-se que a preocupação de Isabel (emissora) é a de perder peso e sua consciência não atenta para outras questões. Ela solicita à Miss Anna (mediadora) a informação sobre onde se pode comprar o femproporex, um dos três anorexígenos mais vendidos no Brasil (os outros dois são feitos à base de anfepramona e mazindol)[22] que deveria ser adquirido apenas mediante receita médica. De acordo com Isabel, ela precisa perder peso, pois está em desespero. A produtora do discurso afirma que seu companheiro já não gosta mais dela e que, por estar com 61 quilos e possuir 1,54 m de altura, sua vida em família é ruim.
Todavia, ela não atenta para muitas das conseqüências de se ingerir o psicotrópico anorexígeno que procura. Segundo matéria publicada na página da Internet da Comunidade Virtual em Vigilância Sanitária[23], que discorre a respeito de uma pesquisa desenvolvida pela Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Vigilância Sanitária deste município, que resultou na tese da coordenadora do projeto, a farmacêutica Mônica de Fátima Gontijo Carneiro, intitulada Avaliação do Consumo e Dispensação de Psicotrópicos Anorexígenos Consumidos em Belo Horizonte, estas substâncias acarretam “danos consideráveis à saúde”.
Os inibidores derivados das anfetaminas (Femproporex, anfepramona e mazindol) atuam no sistema nervoso central, causando dependência química. Seu uso também coloca o paciente sob risco de desenvolver hipertensão arterial, taquicardia, problemas hepáticos e renais, ansiedade e agitação. Para controlar esses últimos sintomas, os médicos costumam associar o medicamento a ansiolíticos.[24]
Observa-se que, em momento algum, no discurso de Isabel existem indagações sobre os malefícios que a droga pela qual busca pode causar. Ela ainda diz ter 34 anos e um filho de 8 anos de idade. A emissora apenas se recorda com aparente tristeza que, antes da gravidez, pesava 46 quilos. O discurso é tão desesperador a ponto de não se pensar numa possível situação: ser mãe de uma criança e ainda por cima apresentar uma série de doenças causadas por este tipo de droga e, também, na pior das hipóteses chegar a morrer por causa dela.
Como já mencionado, de acordo com Michel Foucault o intelectual não tem a função de aconselhar as pessoas. Todavia, Paulo Vaz[25] discorre a respeito dos riscos e aponta formas alternativas para se perder peso. De acordo com Vaz, os indivíduos que gostam muito de comer doces poderiam evitar festas, ambiente em que essas guloseimas fazem parte do cardápio. Dessa forma, as pessoas estariam evitando os problemas (ganho de peso) dos quais querem se livrar, porém algumas preferem o caminho mais perigoso, como por exemplo, o das drogas psicotrópicas que fazem emagrecer. Em se tratando de Isabel, por um lado ela faz a opção de abandonar a ingestão de açúcar, mas não abre mão de se automedicar.
Cabe ressaltar, que existe a possibilidade desta produtora de discurso desconhecer os males quanto à ingestão deste medicamento (femproporex), mas também vale observar que, se ela está buscando o mesmo em um fórum de discussão e não em um consultório de um endocrinologista, sua ignorância não seria tão grande assim. Talvez, o único risco que esta e demais emissores preferem não correr é o de ouvir uma resposta negativa ao solicitar um desses anorexígenos a um médico. Afinal, pacientes não solicitam medicamentos, pois o diagnóstico deve partir do profissional gabaritado, após a realização de uma anamnese e exames clínicos.
Mesmo assim os indivíduos podem conseguir os medicamentos por meio da rede virtual. Afinal, a Internet assume o papel de ferramenta comunicacional de considerável importância, que tem por finalidade possibilitar um extenso canal de interação entre as pessoas. Seu potencial comercial também é algo estimulado e voraz.
Segundo reportagem publicada na revista Época [26], cujo título é Perigo On-Line, existem outros meios de se conseguir uma receita fora dos consultórios médicos. A matéria de autoria de Beatriz Monteiro e Gisela Anauate trata-se de um trabalho jornalístico que analisou o crescimento do “comércio virtual de medicamentos que podem viciar e matar”. Nele, verifica-se que o anonimato é peça fundamental para que se estabeleçam os discursos, que por sua vez são constituídos pela persuasão nada rígida (até delicada), porém instigante de seus componentes.
A oferta pela internet não é discreta. Há endereços eletrônicos que funcionam como verdadeiras lojas virtuais. Eles se mascaram de forma a parecer confiáveis. Dão boas-vindas ao cliente, exibem fotos dos produtos e atestam sua qualidade e eficácia. Mas os vendedores de remédio on-line também atuam bombardeando fóruns e listas de discussões com propagandas de medicamentos cuja compra sem prescrição é proibida.[27]
Mais especificamente, o sucesso dos fóruns em relação a esta prática também foi abordado na reportagem. Observou-se que “basta digitar o assunto, e é possível entrar numa discussão entre quem quer comprar ou vender medicamentos controlados”.[28] Sendo que a oferta é ampla e pessoas não gabaritadas atuam como verdadeiros médicos ao montarem combinações de medicamentos que auxiliarão no combate ao aumento de peso.
CONCLUSÃO:
Para que os discursos sejam produzidos nos fóruns virtuais dos psicotrópicos anorexígenos é necessário haver a existência da ignorância e do saber. Além disso, seus participantes (emissores, receptores e mediadores) devem estar dispostos a trocar informações. Desta forma, a produção da narrativa é iniciada e tem a capacidade de se manter até suprir as dúvidas dos indivíduos. Estas dúvidas são variadas e inúmeras, além de se multiplicarem velozmente. A produção dos discursos, em alguns casos, somente é extinta contra a vontade de seus produtores quando é impossível evitar a morte e problemas de ordem financeira.
Como foi mencionado, o indivíduo é excitado pela publicidade e pelo cotidiano a ter um corpo belo. Sendo que a beleza requerida pela sociedade atual é a do corpo magro. Sem retóricas pesadas cada pessoa inserida nos fóruns dos psicotrópicos anorexígenos é levada ao consumo destes medicamentos por vontade própria. Observou-se que a produção narrativa do emissor não tem a intenção de desmentir a do receptor e vice-versa. Se um deles afirma que determinado substância atenderá ao objetivo de perda de peso, não há discordâncias e as palavras são acatadas.
Para Michel Foucaul “uma proposição deve preencher exigências complexas e pesadas para poder pertencer ao conjunto de uma disciplina, antes de ser declarada verdadeira ou falsa.”[29] Porém, verifica-se mais uma vez que as trocas de informações neste local da virtualidade estão muito distantes de qualquer tipo de exigência e, principalmente, as próprias informações (não somente o ato de trocar, mas o conteúdo).
Os fóruns que estão servindo como objetos de estudo, apenas prezam em fornecer a satisfação (intrínseca ou explicitamente) em seus discursos. Compreende-se que as “exigências complexas” estão muito distantes destes lugares do ciberespaço. Observa-se que os produtores dos discursos não estão preocupados se as informações trocadas são verdadeiras ou não, se de fato o que promete um emissor em sua fala terá ou não efeito, como por exemplo, se um medicamento que se ingerido de acordo com as instruções fornecidas resultará na perda de peso desejada. Não existe rigor para que ações posteriormente sejam colocadas em prática.
Em uma perspectiva de comunicação, ficaremos indiferentes a esta questão: pouco importa que a mensagem seja falsa ou verdadeira, pois, fundamentalmente, consideramos que se trata, na maior parte dos casos, de opiniões que são argumentadas e não de verdades ou erros. [30]
Nota-se por meio das palavras de Philippe Breton, que nos fóruns dos psicotrópicos anorexígenos faz se presente essa falta de importância e que, apesar da interatividade já ser um processo consolidado, ela é baseada nas experiências do cotidiano (no mais puro empirismo), e devido a essa estrutura produz as tais “opiniões que são argumentadas”. Percebe-se, então, nada mais que um simples processo de troca. Logo, os discursos produzidos são operados por mecanismos considerados menos meticulosos em relação àqueles que Foucault em determinado momento de sua trajetória analisou e, também, acompanhou sua inutilização a partir da metade da década de 1960. Mas existe uma obviedade. Todos objetivam perder peso, mesmo que seja oferecida uma espécie de placebo durante as conversas sedutoras e nada rígidas.
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http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=26735567
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4677869 http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG70211-6014,00.html
[1] Portaria nº 344. Disponível em: http://anvisa.gov.br/legis/portaria/344_98.htm Acesso: Maio 2007
[2] Foucault, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 147
[3] Idem. p. 10
[4] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 118
[5] Idem. p. 118
[6] Idem, ibidem. p. 117
[7] DELEUZE, Gilles. Post Scriptum: sobre as sociedades de controle. Rio de Janeiro: Conversações, 1972-1990. p.219
[8] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 146
[9] Idem. p. 147
[10] CASTELLS, Manuel . A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 378
[11] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 148
[12] Idem. p. 151
[13] Disponível em: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=26735567 Acesso em: Maio de 2007
[14] LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva. São Paulo: Edições Loyola, 1998. pp. 26-31
[15] Disponível em: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=26735567 Acesso em: Maio de 2007
[16] Disponível em: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4677869 Acesso em: Maio de 2007
[17] Disponível em: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4677869 Acesso em: Maio de 2007
[18] Disponível em :http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pof/2002/imc_calculo.php Acesso em: Maio de 2007
[19] SARLO, Beatriz. Cenas da Vida Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997. p.23
[20] Idem. p. 25
[21] Disponível em: http://inforum.insite.com.br/miss-anna/#msgs Acesso em: Maio de 2007
[22] Disponível em: http://www.abpbrasil.org.br/comunidade/exibComunidade/?comu_id=10 Acesso em: Maio de 2007
[23] Disponível em: http://cvirtual-anvisa.bireme.br/tiki-read_article.php?articleId=151 Acesso em: Maio de 2007
[24] Idem.
[25] VAZ, Paulo Roberto Gibaldi. Corpo e Risco. Fórum Media, Viseu, v.1, n. 1, 1999. p. 116
[26] Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG70211-6014,00.html Acesso em: Maio de 2007
[27] Idem.
[28] Idem, ibidem.
[29] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 33-34
[30] BRETON, Philippe. A Argumentação na Comunicação. São Paulo: Edusc, 1999. p. 14